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Amordaçaremos também a emoção?

sexta-feira, 21/05/10

José Carlos Sturza de Moraes*

As novas regras para as cerimônias de formatura na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, implantadas para que esses eventos sejam menos entediantes e cansativos, é um bom motivo para reflexão.

Em janeiro deste ano, depois de oito anos, formei-me naquela instituição de ensino. Nos meses anteriores tive de decidir sobre a forma como gostaria de me formar, se em gabinete, num ritual rápido, particular e sem outros custos, ou numa cerimônia pública junto com a turma, com uso de Toga e tudo mais.

Na época, decidi pela emoção. Emoção de poder emocionar-me, de compartilhar com meus filhos e amigos esse momento tão importante. Foi uma maratona. Prova de togas, escolha de música, oradores, padrinhos… muitas reuniões. No dia da formatura, uma tarde de sábado de janeiro, caia chuva aos cântaros, e mesmo assim centenas de pessoas lotaram o Salão de Atos.

Nas falas de tudo se ouviu, a formalidade dos servidores em suas devidas tarefas de tornar o ato oficial, a saudação calorosa dos paraninfos (‘dindos’ escolhidos pela emoção de marmanjos que os queriam padrinhos), e – sobretudo – nas falas, com ‘colinha’ e improvisadas, de todos e todas que se formavam. O ambiente era extrapolado pela emoção, pela vida, pela interação do mundo universitário com as várias cosmologias familiares. Quase ‘olho no olho’, pais e amigos praticamente dividiam o palco conosco. Muita gente se surpreendeu com manifestações recíprocas e muito choro se viu, gargantas secaram.

Trocar isso por uma cerimônia ‘mais enxuta’, ‘menos enfadonha’, etc, onde, como disse uma das pessoas entrevistadas (ZH 17/05/10) o vídeo deve mesmo substituir a fala dos formandos porque ‘é melhor para todos’, pois ‘o pessoal vai prestar mais atenção é na tela’, parece – desculpem – uma tentativa de amordaçar sentimentos, de calar a emoção. Ou muito pior, de proibir que outros expressem aquilo que alguns têm dificuldade. Para esses já existe solução: tem a formatura em gabinete.

Quanto a determinar tempos mais rigorosos para a fala, sim, muito bem! Em minha cerimônia um dos oradores, professor, simplesmente resolveu dar uma aula, em mais de 60 minutos, enquanto formandos que mais falaram, e que pela nova regra têm de gravar um vídeo de 30 segundos, não passaram de um minuto e meio.

Numa sociedade em que temos muitas dificuldades de reconhecer e manter rituais, respeitosamente, parece que a regra nova mais que regular acaba por desregular. Desregula uma construção grandiosa, demorada, bonita, viva, onde o cansaço pode não ser fardo e valer muito a pena. Rapidez e consumo instantâneo são os únicos indicativos possíveis de qualidade, de beleza? Reitor, não será possível se repensar a mudança, regulando melhor os tempos, mas não amordaçando a emoção?

* Bacharel em Ciências Sociais/UFRGS

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